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INCENTIVANDO a AMAMENTAÇÃO desde a GESTAÇÃO

Por: Milena Machado Justino e colaboradoras

RELATO DE EXPERIÊNCIA DE UMA ATIVIDADE EDUCATIVA COM MULHERES:

 

INCENTIVANDO A AMAMENTAÇÃO DESDE A GESTAÇÃO

 

EDUCATIVE ACTIVITY WITH WOMEN EXPERIENCE  NARRATION: REINFORCING BREASTFEEDING SINCE PREGNANCY.

 

 

Milena Machado Justino2

Andréa Mocellin2

Ingrid G. Rodriguez2

Ingrid B. Bertoldo3

Telma Elisa Carraro4

 

 

Neste artigo relatamos à experiência de alunas de graduação em estágio de conclusão de curso, quando realizaram uma prática educativa com mulheres que vivenciam o período gestacional. Acreditando que a amamentação deve ser incentivada desde a gestação para que seja entendida e valorizada pela mulher, procuramos sensibilizá-las para este momento tão importante na vida da mulher-mãe e do seu filho. Nesta atividade foram abordadas questões como: vantagens da amamentação para a mulher e para o bebê e seu papel nutritivo, afetivo e de proteção, entre outros. Apontamos a atividade educativa em grupo como estratégia para o fortalecimento da mulher tanto física como psicologicamente para que a amamentação se dê de maneira efetiva.

 

Palavras-chave: Amamentação, mulher, gestação, educação.

 

In this article, we narrate the nursing graduation’s conclusion training period, when they used an educative practice with pregnant women. Believing that breastfeeding should be reinforced since pregnancy, so that it is understood and valued by the woman, they aimed to reach them in this important period for the woman-mother and her baby. Were approached in this activity issues as: the advantages of breastfeeding for the woman and her baby; its nutritive, affective and protection aspects, among others. We suggest the group educative activity as a strategy for the woman’s physical and psychological strength, so that the breastfeeding effectively takes place.

 

Key-words: breastfeeding, woman, pregnancy, education educative activity with women experience narration: reinforcing breastfeeding since pregnancy.

 A mulher que está vivenciando o período gestacional está sujeita as diversas alterações hormonais, fisiológicas, psicológicas e sociais, portanto em muitos momentos podem existir sentimentos ambíguos em relação à aceitação ou não da gestação e/ou da amamentação. Neste período, apoio, carinho, e compreensão pela família e pelos profissionais que estão ao seu lado são de fundamental importância para o sucesso da amamentação.

Assim, realizamos uma atividade educativa sobre esta temática com mulheres vivenciando o período gestacional e nos propomos neste artigo a relatar a experiência. Realizamos este encontro, pois percebemos em nossas atividades acadêmicas com mulheres a importância de se tratar deste tema com as mesmas e sua família ainda na gestação.

Para desenvolvermos nosso trabalho atingindo um maior número de gestantes escolhemos uma forma de atividade que fosse participativa e grupal. Compartilhamos com Alonso (1999, p. 122) quando esta afirma que “a história nos mostra que o agrupamento social é uma tendência natural do ser humano”. Sobre este mesmo tema Taylor (1992, p. 382) lembra que “(...) os seres humanos passam a maior parte de seu tempo em situações de grupo. Vivem, trabalham, brincam, aprendem e oram em grupo”.

Acreditamos que trabalhando com as mulheres, de maneira grupal proporcionamos a troca de experiências entre elas e menor inibição por parte das mesmas em questionar, debater e opinar. No que se refere ao aspecto educativo praticado com grupos Alonso (1999, p. 123) cita que

(...) o processo educativo desenvolvido em grupo, valoriza esta aproximação natural das pessoas, ao mesmo tempo em que favorece o fortalecimento das potencialidades individuais e também grupais, na valorização da saúde, na utilização dos recursos disponíveis e no exercício da cidadania.

 

Cada mulher e familiar que faz parte do grupo é um ser humano único, com história de vida própria, sentimentos, aptidões, medos, dúvidas, conhecimentos, crenças e valores, trazendo suas experiências e vivências para que sejam compartilhadas e auxiliem na construção e consolidação deste grupo. Concordamos com Alonso (1999) quando afirmou que o processo educativo tem um forte aliado que é o ato de compartilhar saberes e experiências trazidas da vivência cotidiana das pessoas.

Abordamos o assunto amamentação por conhecermos a importância da mesma para o recém-nascido e para a mulher e acreditarmos que o incentivo para que isso aconteça pode ser iniciado na gestação. O presente trabalho tem como objetivo relatar a experiência de promover conhecimento sobre o aleitamento materno entre as mulheres que vivenciam o período gestacional.

A amamentação proporciona ao recém-nascido um ótimo começo na vida e contribui para a melhor saúde da mãe. Em vista disso sentimos necessidade de buscar na literatura embasamento científico para realizarmos nosso trabalho.

Quando uma mulher passa por um processo de gestação, ela pode sentir-se um pouco confusa e muitas vezes angustiada. Ao trocar experiências com outras mulheres e com profissionais capacitados entendemos que ela terá o seu poder vital fortalecido para superar os obstáculos que virão. Em diversos casos, um desses obstáculos é a amamentação. Compartilhamos com Lana (2001, p. 47) quando afirma que

 (...) se a mãe sentir-se bem consigo mesma, haverá harmonia e tranqüilidade na relação mãe-filho. Daí ser imprescindível informar à mãe que ela poderá ser tomada por estes sentimentos e que é natural que ele exista, e que são compartilhados em maior ou menor grau, por todas as mães.

 

É neste momento que a equipe de saúde deve atuar suprindo suas dúvidas, entendendo e aceitando seus medos e angústias e orientando, pois

 uma orientação antecipatória para os principais eventos do pós-parto torna-se imprescindível. A orientação deverá se dar não só sobre os eventos orgânicos e fisiológicos, mas principalmente sobre os eventos psicológicos, pois são estes, na maioria das vezes, os responsáveis pelo bom ou pelo mau andamento da amamentação. (LANA 2001, p. 19)

 

A Organização Mundial de Saúde/UNICEF (1997) recomenda o aleitamento materno exclusivo desde o nascimento até os 6 meses, e a manutenção com alimentos complementares até 2 anos de idade ou mais. Entretanto, a maioria das mulheres em grande número de países começa a dar mamadeiras ou outros alimentos artificiais antes dos 4 meses e muitas desmamam muito antes da criança ter dois anos. As razões comuns para isso são elas acreditarem que não têm leite suficiente ou então o fato de terem alguma outra dificuldade em amamentar. Algumas vezes é porque a mulher trabalha fora de casa e não sabe como manter a amamentação e o trabalho. Outras vezes é porque não tem quem ajude no que ela necessita, ou porque a rotina do serviço de saúde e os conselhos que ela recebe não são de apoio à amamentação.

Sabemos que auxiliar uma mulher a amamentar acaba por tornar-se uma tarefa rotineira para os profissionais de saúde, porém é de extrema importância entender que aquela mulher é única e vivencia este momento de forma singular. Isto corrobora com o que afirma Lana (2001, p. 09)

A mãe não poderá jamais ser tratada com um objeto, uma espécie de mamadeira natural. Deve, sim, ser o centro de nossa atenção e ação. A amamentação só se dá através dela e só se dará a contento se suas necessidades físicas, emocionais, sociais, culturais, intelectuais e profissionais forem pelo menos razoavelmente atendidas. É preciso cuidar bem da mãe para que ela possa cuidar bem do bebê.

 

A mulher pode achar que não vai conseguir cuidar bem do bebê, que não vai conseguir conciliar os papéis sociais, profissionais, domésticos, de esposa e de mãe de outros filhos. Pode não aceitar que o leite fabricado pelo seu corpo é tudo aquilo de que a criança necessita. Esses temores podem ser maneiras de expressar sua baixa auto-estima. (LANA 2001).

Diversos são os fatores que levam as mulheres a terem sentimentos ambíguos em relação a desejarem ou não a amamentação, segundo este mesmo autor, entre eles está o fato de a mama ser, em nossa sociedade, vista mais como um órgão sexual do que um órgão destinado à amamentação. A mulher pode ter dificuldade em associar a mama erótica à mama funcional. Algumas mulheres ainda têm o preconceito de que ao amamentar haverá a queda da mama. A constituição genética de cada mulher é que irá determinar a modificação da mama e esta modificação torna-se mais evidente no período galactogênico e galactopoiético. Amamentando ou não, a glândula mamária com o passar do tempo sofrerá modificação devido à “involução lipomatosa, que é fisiológica e inevitável”.

Tratando-se de desistência da amamentação a Organização Mundial da Saúde/UNICEF (1997) salienta que a mulher que amamenta pode facilmente perder a confiança em si mesma. Isto pode levá-la a dar alimentação artificial desnecessária, para responder as pressões da família e de amigos. Confiança pode ajudá-la a ter sucesso na amamentação. Confiança também a ajuda a resistir a pressões de outras pessoas em dar outro tipo de leite à criança.

Quando trata de vínculo afetivo e amamentação a Organização Mundial da Saúde/UNICEF (1997) afirma que esta ajuda à mulher e o bebê a formarem uma relação íntima e amorosa que a faz sentir-se profundamente satisfeita emocionalmente. O contato íntimo desde imediatamente após o parto ajuda esta relação a se desenvolver.

De acordo com Lana (2001) a ocitocina que é liberada em decorrência da estimulação do mamilo e da aréola durante as mamadas tem um efeito semelhante ao das morfinas endógenas, as endorfinas, causando um estado de euforia, aumentando o limiar à dor e ao cansaço e do sentimento de amor pelo bebê. Níveis aumentados de ocitocina possibilitam a instalação de um forte vínculo afetivo mãe-filho reforçado a cada mamada.

Mães que amamentam respondem a seus bebês de uma forma mais afetuosa. Elas reclamam menos da necessidade de atenção do bebê e amamentar durante a noite. É menos provável que elas abandonem ou maltratem os seus bebês. (...) Bebês choram menos, e podem se desenvolver mais rapidamente, se permanecerem junto da mãe e forem amamentados imediatamente após o parto (OMS/UNICEF, 1997, p. 08).

 

Burroughs (1995) cita, entre outras, algumas vantagens da amamentação: o leite materno é seguro e sempre fresco; está sempre disponível; contém uma diversidade de agentes antinfecciosos e imunológicos; é o alimento menos alergênico para a criança; a amamentação promove um bom desenvolvimento dos maxilares e dos dentes; as crianças alimentadas com leite materno não ingerem em excesso, evitando o problema da obesidade; é menos dispendiosa que a com leite industrializado. O ferro do leite materno é bem absorvido, as reservas ferrosas são suficientes por aproximadamente 6 meses. É mais fácil que o recém-nascido alimentado com mamadeira fique superalimentado e torne-se obeso, o que não é bom para a sua saúde.

Comparando os componentes do leite materno com o leite de vaca Burroughs (1995) cita que o conteúdo protéico do leite materno é menor. O leite materno contém mais lactalbumina, o que reduz a formação de coalhos no intestino da criança; a gordura do leite materno é mais fácil de digerir e absorver que a do leite de vaca; o conteúdo de lactose (açúcar) do leite materno é, significativamente, maior que a do leite de vaca; a imunidade é um componente exclusivo do leite materno. Ela inclui anticorpos aos microrganismos que podem proteger a criança contra as infecções gastrintestinais.

A amamentação precoce é benéfica para a criança pois permite que ela receba o colostro (líquido amarelado e cremoso), assim como estimula as mamas a produzirem o leite. O colostro proporciona à criança a imunidade passiva, contendo altos níveis de imunoglobulina (Ig) G e A, anticorpos que protegem o recém-nascido contra as doenças respiratórias e gastrintestinais. A imunidade é significativa, porque os anticorpos protegem também contra a Eschirichia coli a que as crianças estão freqüentemente expostas e contra o que pouca ou nenhuma imunidade natural existe. (BURROUGHS, 1995, p. 213)

 

Para o bebê o ato de mamar tem uma função nutritiva, e de proteção. Dentro desta perspectiva Lana (2001, p.55) complementa que “o contato físico, além de ser um estímulo agradável, possibilita-lhe alcançar mais plenamente suas potencialidades. É uma necessidade biológica, uma necessidade vital”.

Moura (2005, p.27), alerta para a composição química variável com o tempo que o leite humano apresenta.

além de variar com o tempo de maturação gestacional (pré-parto) e pós parto, o leite humano também varia com a hora do dia e com o tempo da mamada (começo e fim), de modo a se adaptar plenamente às características fisiológicas e às necessidades nutricionais do lactente, a termo ou pré-termo.

 

Para a mulher o aleitamento materno deve ser uma tarefa agradável e satisfatória, assim como para o bebê. É o momento em que podem começar a conhecer-se. Isto se evidencia quando Lana (2001, p.65) fala do prazer que o bebê sente em sugar o peito da mãe.

Assim como o adulto concentra sua satisfação libidinosa nos genitais externos, a criança no seu primeiro ano de vida tem como zona erógena a boca. É chamada zona erógena porque é uma área geradora de prazer. A intensidade do prazer que o adulto sente nos genitais equivale ao que a criança sente na boca mamando, e esta vivência tão intensa pode ter repercussões das mais positivas na vida do bebê. Não há como duvidar que o seio materno seja infinitamente mais excitante e prazeroso que a fria e dura mamadeira. Além disto, o peito costuma dar o fluxo de leite que acarreta a sucção durante um tempo suficiente para que o bebê atinja o máximo de excitação e o máximo de prazer, o que faz com que ao término da mamada ele atinja o clímax, praticamente desmaiando de satisfação, dormindo após a mamada com uma expressão de beatitude.

 

Apesar da importância do leite materno à saúde da criança e a indicação de ser exclusivo nos primeiros seis meses de idade, poucas mulheres conseguem amamentar até este período. Vários são os fatores que influenciam nesta prática, pois são múltiplos e complexos. Giugliani (2005, p.17) refere como exemplo

condutas inapropriadas e falta de habilidades dos profissionais de saúde; aspectos culturais; falta de confiança/baixa auto-estima da mãe; falta de apoio e suporte familiar e comunitário; trabalho da mulher; e promoção inapropriada de substitutos do leite materno.

De acordo com a OMS/UNICEF (1989), apesar de todo o reconhecimento dos benefícios para a mulher e para o bebê, ainda não se tem alcançado os objetivos esperados.

Segundo Monticelli et al. (2002), o fato disto acontecer deve-se a uma multiplicidade de fatores sociais, culturais, econômicos e políticos, cujas causas estão sendo estudadas e muitas já são conhecidas. Entre as principais que afetam a iniciação e o estabelecimento normais da lactação, destacamos a desinformação sobre a função biopsicológica do ato de amamentar, tanto na população em geral como dos profissionais de saúde, bem como as práticas de cuidados de saúde, especialmente as dirigidas às mães e aos recém-nascidos.

Assim, é de grande importância para que a amamentação seja efetivada que a mulher esteja preparada para tal, portanto, acreditamos que orientá-la quanto aos pontos básicos das vantagens da amamentação faz com que ela sinta-se segura e entenda que seu leite tem capacidade de suprir as necessidades nutricionais de seu bebê.

Esta prática foi realizada em uma Unidade Local de Saúde (ULS), em um bairro da periferia da cidade de Florianópolis – SC, no mês de março de 2005. Fomos convidadas para coordenar os encontros no decorrer daquela semana com as gestantes, pois o tema contemplava: Amamentação. O Hospital Universitário da UFSC é referência para estas atividades de trabalho, desenvolvemos atividades educativas sistemáticas dentro da sua área de abrangência. Nesta ULS terças e quintas feiras acontecem às consultas de pré-natal, onde participam acadêmicos da UFSC acompanhados pelos profissionais da ULS, os quais organizam os encontros com seus respectivos temas. As gestantes vão até a unidade para consulta pré-natal marcada uma vez por mês. Chegam uma hora antes para o grupo e ao final da reunião recebem um lanche preparado pelas organizadoras.Ao término do grupo elas são chamadas para a consulta de acordo com a rotina da Unidade.

O público alvo era mulheres que vivenciam o período gestacional, entre 15 e 40 anos, participantes do grupo de gestantes da ULS citada.

Os aspectos éticos foram preservados. As mulheres gestantes que participavam do grupo foram orientadas quanto ao objetivo desta atividade educativa e do anonimato das informações colhidas durante a dinâmica. Houve concordância de toda a população que participava do estudo.

A coleta de dados deu-se durante o desenvolvimento das ações educativas, quando as mulheres participavam das mesmas. Uma das facilitadoras conduzia o momento de apresentação quando as participantes além do nome informavam a idade, escolaridade, idade gestacional e número de gestações anteriores. A participação das mulheres durante o desenvolvimento da temática, questionando e mesmo respondendo a perguntas feitas pela facilitadora gerando reflexões e discussões, culminando coma a troca de conhecimentos. Durante a reunião uma das facilitadoras ficou responsável por registrar as falas das participantes.

Nesta experiência aplicamos a reflexão e discussão acerca de aleitamento materno, incluindo: fisiologia da lactação, vantagens para a mulher e para o bebê, posições para amamentar e problemas mamários (fissura, ingurgitamento e mastite).

Ao chegar ao grupo cada participante recebia um crachá com seu nome escrito para identificação, sendo, posteriormente, convidada a se sentar em cadeiras e bancos previamente dispostos em círculo. Após a apresentação de cada participante e facilitadoras o encontro seguiu em três momentos distintos:

O primeiro tratando da fisiologia da lactação. Para esta abordagem foram elaboradas pelas facilitadoras figuras ilustrando a fisiologia da lactação. As mulheres eram incentivadas a participar enquanto as figuras eram mostradas e debatidas.

No segundo momento o assunto foi: vantagens da amamentação. Montamos um quadro na parede com fita adesiva e pedaços de papel. Abaixo do papel escrito “mãe” estavam coladas palavras que simbolizavam as vantagens da amamentação paras as mulheres, abaixo do papel escrito “bebê” colamos as vantagens para o bebê. As mulheres auxiliavam o debate citando vantagens que já conheciam ou que tinham ouvido falar.

No terceiro momento foram debatidos os temas: posições e pega para amamentação e problemas com as mamas. Para demonstrar as posições ideais para amamentação foram usadas mamas cobaias e uma boneca. As mulheres participavam ativamente com perguntas e comentários.

Junto a esta prática mostrou-se no modelo de mamas cobaia a maneira correta de fazer a ordenha do leite, e como e porque ocorrem problemas mamários como fissuras, ingurgitamento e mastite. Iniciou-se um diálogo onde as mulheres que possuíam experiências anteriores eram convidadas a compartilhá-las com o grupo, comentando como trataram e se isso interferiu na amamentação.

O grupo teve duração de uma hora e vinte minutos, contou com a participação de 8 mulheres gestantes, uma criança levada por uma delas e uma acadêmica de medicina. A atividade educativa foi liderada por quatro facilitadoras, sendo uma enfermeira e três acadêmicas de enfermagem da última fase do curso.

Conforme Lawrence (1996) pesquisadores estudaram as atividades dos grupos de apoio e concluíram que esta dinâmica de grupo é importante e reforça o sentimento de ser normal. A informação e a experiência são importantes, mas o apoio do grupo tem uma influência muito maior para o êxito da amamentação. São práticas que podem fortalecer a mulher/família nesse período.

Assim, ao apresentarmos e analisarmos os dados obtidos nesta prática educativa sobre aleitamento materno com mulheres gestantes procuramos trazer a realidade vivenciada de forma que o leitor possa apreender desta experiências

Dentre as mulheres participantes metade tinha idade inferior a 20 anos. Houve predominância de mulheres vivenciando a primeira gestação, apenas duas entre as oito participantes tinham outros filhos. Estes dados demonstram a procura por momentos educativos por parte das mulheres mães de primeira viagem

Observamos que entre as oito mulheres gestantes relacionadas apenas uma concluiu o segundo grau. Este fato aponta a baixa escolaridade, a qual pode repercutir na saúde da criança. Isso pode ocorrer devido ao difícil acesso às informações sobre prevenção, higiene, alimentação saudável, e importância dada às informações de saúde fornecidas pelos profissionais.

Há mais de 15 anos já se considerava a educação materna como um importante determinante da mortalidade infantil. Mães com melhor nível educacional teriam mais conhecimento e dariam maior importância à limpeza da moradia e hábitos higiênicos relativos à criança, reduzindo o nível de exposição à patógenos (FRANÇA et al, 2001, p.1445).

          

Percebemos que a grande maioria das mulheres presentes não havia planejado a gestação, algumas delas relataram ter sofrido muito ao tomar conhecimento da mesma. Este fato pode ser um grande determinante de angústias e medos no momento da amamentação.

Conforme citam Verny e Weintraub (2004) toda gestação deveria ter sido planejada, toda criança deveria ser um filho desejado, pois as crianças que são concebidas com amor e são cuidadas com afeto se beneficiam disto por toda a vida.

Quando se trata de sentimentos ruins na gestação e como combatê-los Lana (2001, p. 22) afirma que

Já que alguns medos já permeavam o pensamento da mãe desde a gestação, é durante este período que a mãe deve ser esclarecida e orientada sobre os medos atuais e os que irão acometê-la, para que ela elabore estes medos, não deixando que eles sobrecarreguem emocionalmente os primeiros dias de vida do bebê.

 

Os sentimentos positivos são muito importantes para o sucesso da amamentação, os negativos podem inibir o reflexo de descida, coibindo dessa forma o suprimento de leite. A falta da confiança da mulher, a vergonha, ou a dor podem impedir que o leite seja liberado (BURROUGHS, 1995).

Segundo Monticelli et al. (2002) do ponto de vista psicológico é importante ressaltar que a promoção do aleitamento materno contribui significativamente para o fortalecimento do vínculo entre mãe e filho, proporcionando ao bebê estímulos sensoriais, auditivos, táteis, visuais e emocionais, favorecendo o desenvolvimento do intelecto, do psicossocial e da acuidade visual.

Salientamos que a maioria das mulheres gestantes participou ativamente das discussões, o que foi evidenciado tanto pelas suas expressões verbais, quanto pelas não-verbais: olhar atento para quem falava, expressão facial denotando dúvida ou gestos de confirmação das falas das participantes do grupo.

No início da conversa as mulheres participantes relataram se a gestação havia sido planejada ou não. Uma delas relatou que chorou muito ao saber da gravidez, outra disse que ficou muito triste, pois teve que mudar seus planos de vida. Uma das facilitadoras referiu que é muito importante que o bebê sinta-se aceito, amado e bem-vindo ainda no período gestacional, que ele é capaz de perceber como os pais estão se sentindo com sua chegada. Este momento causou um grande silêncio. Percebeu-se algumas mulheres com a cabeça baixa e outras pensativas.

Segundo Verny e Weintraub

A experiência emocional do bebê se desenvolve em sintonia com o que o pai e a mãe transmitem. Os circuitos que são criados mediante esta sintonização paterno-filial definirão posteriormente a capacidade da pessoa para se relacionar com os demais (2004, p.141).

Sentimos que em alguns momentos as mulheres mostraram-se mais empolgadas com o assunto pois percebíamos alvoroço e murmúrios entre elas, como foi o caso quando uma delas citou que uma vantagem da amamentação para a mãe é a perda mais rápida do peso adquirido durante a gestação.

Um momento que marcou nossa atividade foi quando uma mulher gestante relatou ser mãe de seis filhos de pais diferentes e compartilhou com o grupo que isso aconteceu porque ela leva uma “vida profissional diferente”. Este momento causou um silêncio e exigiu da facilitadora uma atitude empática e não julgadora, quando enfatizou ao grupo que a mulher, além de mãe, assume ainda outros papéis, dentre os quais o de provedora da família, e que nem sempre a atividade que desempenha vai ao encontro do padrão social e cultural de trabalho.

Durante a atividade educativa, uma participante relatou sentir medo do parto, outra comentou que já estava tendo fissuras, ou “calor de figo” como referido por ela, desde o início da gestação, sendo orientada sobre os cuidados a serem tomados com as mamas.

E assim a atividade prosseguia com trocas de informações, experiências angústias e também de sentimentos positivos evidenciado com a expressão de felicidade com que uma delas relatou “meu marido adora o bebê, ele chega em casa e fica conversando com a barriga”.

Desenvolver atividades em grupos é intrínseco ao ser humano. Na Enfermagem a utilização deste recurso para cuidar de pessoas não constitui propriamente uma novidade. Por natureza, o Enfermeiro é um profissional que desenvolve o seu trabalho em grupo (CARRARO e WALL, 2005). Assim, o desenvolvimento desta atividade educativa com mulheres gestantes, durante a graduação agrega conhecimentos e habilidades à formação do profissional enfermeiro.

Esta vivência levou-nos a concluir que trocar informações, experiências e compartilhar opiniões sobre aleitamento materno, ainda na gestação, através de grupo educativo, contribui para que a mulher esteja mais fortalecida e melhor orientada, tendo maior probabilidades de superar os obstáculos que poderão vir no momento de amamentar seu bebê.

Estas atividades proporcionam às mulheres um espaço para compartilhar suas ansiedades, mostrando a elas que outras mulheres também podem estar sentindo estas mesmas angústias e dúvidas. Este compartilhar trás maior segurança e confiança, pois ao participar de atividades como esta, cria-se um vínculo com os profissionais e com as companheiras do grupo, o que pode tornar-se um ponto de apoio ao qual podem recorrer quando necessário.

Durante o período puerperal, quando se inicia a amamentação, é um tempo em que a mulher está muito vulnerável, podendo receber influências que dificultem a continuidade da amamentação. Desta forma, proporcionar momentos de educação em saúde sobre a temática contribui para que a mulher sinta-se mais confiante e fortalecida para exercer este papel de provedora do alimento ao bebe, diminuindo o risco de abandonar a amamentação precocemente.

É necessário refletir sobre como podemos alicerçar a prática do cuidado em nosso ambiente de trabalho, contribuindo para o bem estar da mulher e do bebê, visando o sucesso do aleitamento materno. Bertoldo (2003, p.87), enfatiza que “Precisamos fazer menos uso de normas, rotinas e discursos em nossos cuidados e reaprender a pensar o nosso fazer, reconstruindo a nossa prática diária”.

Partindo da reflexão sobre o ato de amamentar e seu significado para a mulher realizamos este trabalho. Acreditando que a informação é um dos meios de conscientizar, que a partir do entendimento os atos tornam-se significativos e com isso maiores são as chances de que a amamentação seja melhor entendida e valorizada pelo seu papel afetivo, nutritivo, de proteção e de prazer.

A atividade educativa foi considerada válida como estratégia de educação em saúde, pois proporcionou a participação das mulheres gestantes sanando algumas de suas dúvidas e diminuindo alguns de seus medos, reafirmando assim, a importância do preparo da mulher que vivencia o período gestacional, tanto física quanto psicologicamente para que o manejo e promoção da amamentação seja efetiva.

Vivemos um tempo onde é preciso resgatar a cidadania. E fazemos isso através do apoio de indivíduos com espírito empreendedor. É preciso desenvolver nas mulheres atitudes empreendedoras como, por exemplo, o planejamento de suas vidas. Vivemos num mundo cada vez mais globalizado, temos que proporcionar momentos de reflexão sobre o seu importante papel como empreendedoras sociais na sociedade moderna (LEITE, 2002).

Criando momentos como este que foi relatado, estaremos inovando nossa maneira de entender e de cuidar destas mulheres, tendo capacidade de perceber suas necessidades de cuidado e assim oferecermos condições para tramitarem por esse período mais conscientes de suas reais capacidades, como referem Carraro e Wall (2005)

Desenvolver uma abordagem diferenciada para o cuidado de Enfermagem com um grupo possibilitou reflexões coletivas, partindo da realidade de cada integrante, valorizando sua experiência e contexto de vida, bem como suas expectativas frente ao vivenciar esse momento.

 

 
REFERÊNCIAS

 

ALONSO, I. K. O processo educativo em saúde – na dimensão grupal.  Texto & Contexto. Florianópolis, v. 8, n.1, p.122-32, 1999.

 

BURROUGHS, Arlene. Uma Introdução à Enfermagem Materna. Editora Artes Médicas. 6ª ed. Porto Alegre, 1995.

 

BERTOLDO, IEB. Uma trajetória com mulheres puérperas: do alojamento conjunto ao domicílio, vivenciando um modelo de cuidado de Carraro [dissertação]. Florianópolis (SC): Programa de Pós-Graduação em Enfermagem/UFSC; 2003.

 
CARRARO, Telma Elisa e WALL, Marilene Loewen. Um modelo de cuidado de enfermeria aplicado a grupos de mujeres – madres. Avances em Enfermeria. Bogotá, v.1, 2005.

 

FRANÇA, E., SOUZA, J. M., GUIMARÃES M., GOULART, E., COLOSIMO, E., ANTUNES, C. Associação entre fatores sócio-econômicos e a mortalidade infantil por diarréia, pneumonia e desnutrição em região metropolitana do Sudeste do Brasil: um estudo caso-controle. Cadernos de Saúde Pública. Rio de Janeiro, v. 17, n.6, p. 1437-1447, 2001.

 

GIUGLIANI, Elsa R. J. Amamentação Exclusiva. In: Amamentação: bases científicas. Rio de Janeiro: Guanabara. 2005. 430 p.

 

LANA, A. P. B. O Livro de Estímulo à Amamentação. 1 ed. Belo Horizonte: Atheneu, 2001.

 

LAWRENCE, Ruth A. La lactancia materna. 4 ed. Madrid: Mosby, 1996, 892 p.

 

LEITE, Emanuel. O Fenômeno do Empreendedorismo. Criando Riquezas. 3ed. Bagaço: Recife, 2002. 557 p.

 

MONTICELLI, M., BRÜGGEMAN, O. M., OLIVEIRA, M. E., SANTOS, E. K. A., GREGÓRIO, V. R. P. Enfermagem Obstétrica e Neonatológica. 2 ed. Florianópolis: Cidade Futura, 2002. 320 p.

 

MOURA, E. C. Nutrição. In Amamentação: bases científicas. Rio de Janeiro: Guanabara. 2005. 430 p.

 

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, UNICEF. Manual de aconselhamento em amamentação: um curso de treinamento, 1997.

 

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, UNICEF. Proteção, promoção e apoio ao aleitamento materno: o papel especial dos serviços materno-infantis, 1989.

 

TAYLOR, C. M.  Fundamentos de Enfermagem Psiquiátrica.  13 ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

 

VERNY, Thomas R., WEINTRAUB, P. Bebês do Amanhã – Arte e Ciência de Ser Pais. Millenium, 2004.

 

Revista Enfermagem Atual ano 7-Numero 37-Janeiro/Fevereiro-2007

[1] Texto elaborado durante a disciplina Enfermagem Assistencial Aplicada, na oitava fase do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina, no primeiro semestre letivo de 2005.

[2]Enfermeira formada pela Universidade Federal de Santa Catarina.

3Enfermeira. Mestre em Assistência de Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Catarina. Enfermeira responsável pela Central de Incentivo ao Aleitamento Materno do HU/UFSC. Presidente da Comissão Pró-aleitamento Materno da Maternidade do HU/UFSC. Membro do grupo de pesquisa Cuidando e Confortando da PEN/UFSC, supervisora deste trabalho.

4 Enfermeira. Pós-doutora em Enfermagem. Docente Adjunto IV do Departamento de Enfermagem e do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina. Coordenadora do Curso de Mestrado da PEN/UFSC. Coordenadora do Grupo de Pesquisa Cuidando e Confortando da PEN/UFSC, orientadora deste trabalho.


Última atualização: 16/11/2010

 

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